capoeira


  •  MARACANGALHA (BA)
    16/nov/2016







    📻 Velhos Mestres

    Dorival Caymmi - Eu vou p'ra Maracangalha, 1957
    < >
    • 01.
      Fiz uma viagem
      2:28
    • 02.
      Vatapá
      2:14
    • 03.
      Roda pião
      2:51
    • 04.
      365 igrejas
      2:24
    • 05.
      Maracangalha
      2:47
    • 06.
      Samba da minha terra
      1:53
    • 07.
      Saudade da Bahia
      2:50
    • 08.
      Acontece que sou baiano
      2:44

    Dorival Caymmi - Eu vou p'ra Maracangalha, 1957



    O ABC de Maracangalha

    1912 - Fazenda Maracangalha virou Usina Maracangalha (e anos depois Usina Cinco Rios).

    1924 - 5 de julho - Besouro passou a noite em Maracangalha (leia mais!).

    1924 - 6 de julho - Besouro foi esfaqueado em Maracangalha (leia mais!). Ele morreu dois dias depois no hospital em Santo Amaro (leia mais!).

    1943 - A inauguração da estação de Maracangalha.

    1957 - Dorival Caymmi lançou o disco Eu vou p'ra Maracangalha e a música Maracangalha (escuta em cima) fazendo o lugar famoso.

    1957 - 2 de fevereiro - Revista Manchete publicou um artigo chamado Afinal, que é Maracangalha?

    1978 - Usina Cinco Rios foi fechada.

    1995 - 11 de fevereiro - inauguração da Praça Dorival Caymmi.

    2006 - 8 de julho - a placa para homenagear Besouro foi pendurado na parede do mercado em Maracangalha.

    A última viagem (azul) de Besouro

    Maracangalha e Besouro


    Salvador > Maracangalha > Santo Amaro

    Salvador > Maracangalha > Santo Amaro


    Galeria de fotos (16/nov/2016)

    • A curva para Maracangalha

    • Maracangalha ao fundo

    • Maracangalha ao fundo

    • O cruzamento de via ferrea (em desuso) de Maracangalha

    • A usina Cinco Rios e a placa de vila Maracangalha

    • A usina Cinco Rios e a placa de vila Maracangalha

    • Maracangalha

    • A usina Cinco Rios

    • A usina Cinco Rios

    • Praça Dorival Caymmi na reforma

    • Praça Dorival Caymmi

    • Praça Dorival Caymmi

    • O cavalo bocejado

    • Uma placa para a música de Caymmi (escute faixa 5 em cima)

    • Praça Dorival Caymmi

    • Praça Dorival Caymmi

    • Praça Dorival Caymmi e a usina Cinco Rios

    • A usina Cinco Rios

    • A usina Cinco Rios

    • A estrada ao mercado

    • O mercado de Maracangalha

    • O mercado de Maracangalha

    • Uma placa a Besouro

    • O mercado de Maracangalha

    • A usina Cinco Rios

    • A vida diária de um maracangalhense

    • A via ferrea (em desuso) a Santo Amaro

    • A vida diária de um maracangalhense

    • Os boiadeiros em serviço

    • A capa do LP de Caymmi, 1957

    • Revista Manchete, 2/fev/1957

      Leia o texto abaixo

    • Revista Manchete, 2/fev/1957

      Leia o texto abaixo

    • Revista Manchete, 2/fev/1957

      Leia o texto abaixo

    • Revista Manchete, 2/fev/1957

      Leia o texto abaixo

    Maracangalha

    Revista Manchete, 2/fev/1957

    • página 1

      -

      AFINAL, QUE É MARACANGALHA?

      Reportagem de Inácio de Alencar
      Fotos de Domingos Cavalcanti

      No roteiro musical de Dorival Caymmi, „Maracangalha“ [lançado no começo de 1957 - velhosmestres.com] talvez seja seu maior sucesso, suplantando „Marina“, „O que é que a baiana tem?“ e „Dora“, pois vem batendo recordes de vendagem em todo o país. O Brasil repete o refrão: „Eu vou pra Maracangalha, eu vou“. O carnaval que se avizinha encontrará na composição do baiano a sua coqueluche. Consagrado, o [..] continua a integrar. A pergunta está em tôdas as bôcas, do Amazonas ao Rio Grande do Sul: „Afinal de contas, que é Maracangalha?“.

      A resposta é fácil. Fomos encontrá-la a 57 quilômetros de Salvador. MANCHETE, hoje, em absoluta primeira mão, conta e mostra Maracangalha. Os repórteres foram os primeiros e (até agora) únicos jornalistas que colheram a história na fonte, convivendo com velhos habitantes do lugar um dia inteiro.

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      página 2

      Mesmo a rua principal de Maracangalha é humilde, monótona, triste mesmo, o cantar de um galo, o trote de cavalos, dão-lhe, de raro em raro, um toque alegre. E logo tudo volta a tristeza.

      MARACANGALHA NÃO É NADA DISSO: É O NOME DE UMA CIDADE TRISTE, ESPÉCIE DE PASÁRGADA* SÊCA E DESOLADA

      É uma história curta e simples, com algumas passagens pitorescas. Infelizmente, nada ficou escrito e a tradição oral foi desaparecendo, com a morte dos pretos velhos dos tempos da escravidão. No ano passado [1956 – velhosmestres.com], morreu o mais antigo morador do lugar: a preta Salomé, com cêrca de 110 a 120 anos. Hoje, pouco se sabe dos dias coloniais de Maracangalha. Só uma coisa parece certa e é explicada por qualquer maracangalhense que preze sua terra: a origem do nome.

      Em época remota, que ninguém sabe precisar, mas que deve ter aí seus 200 anos, nos primórdios dos antigos engenhos, bandos de ciganos acampavam ali, constantemente, em suas andanças pelo sertão. Ao prepararem os animais para as viagens, gritavam uns para os outros: „Amarra a cangalha“. Em sua linguagem arreversada, o que saía era „Maracangalha“. Os pretos escravos pegaram a coisa e passaram a repetir a palavra deturpada para zombar dos ciganos. Com o passar dos tempos, o uso se arraigou e Maracangalha entrou para a geografia do Brasil.

      Geografia de Maracangalha

      PARA chegar a Maracangalha, só existe um meio seguro: o „maria-fumaça“ [que foi desativada em 1978 – velhosmestres.com] da Leste Brasileiro. Automóvel só vai até Candeias. Daí por diante, a estrada é, praticamente, caminho aberto no mato. Só com muito boa vontade, quando o terreno está bem sêco, pode-se arriscar um jipe. Também não é dificil ficar no meio do caminho.

      Maracangalha, atualmente, é distrito de S. Sebastião do Passé. Primitivamente, pertenceu à Vila de S. Francisco do Conde. Abrange uma área de 900 a mil hectares, com população de umas 3 mil almas. Seus habitantes vivem todos em função (ou por causa) da indústria e lavoura da cana-de-açúcar. Aí está localizada uma das maiores usinas do Estado, a Cinco Rios [1912 – 1987 – velhosmestres.com]. Sua origem se prende ao antigo engenho da Fazenda Maracangalha (do qual nasceu a cidade), e em algum tempo se chamou também Usina Maracangalha.

      O nome tradicional estava desaparecendo

      EMBORA seja um distrito, Maracangalha inteira pertence a particulares, isto é, à Usina Cinco Rios. E esta resolveu condenar à morte o velho e bonito nome, que os ciganos, inconscientemente, deram de presente à Bahia. Mas vamos à história, desde o princípio.

      Existia a Fazenda Maracangalha, que deu origem à vila e a um engenho do mesmo nome. Em 1912, o engenho foi substituído por uma usina, batizada como Cinco Rios, nome vindo de outra fazenda das redondezas, propriedade do primeiro dono da usina.

      Só restava o nome da estação da Leste Brasileiro, resistindo heróicamente à investida dos renovadores de mau gôsto. Finalmente, também a estação cedeu à influência da usina e, de uns tempos para cá, apagaram o nome tradicional, colocando, em seu lugar, o de Cindo Rios. O único remanescente que se encontra é uma placa de mármore, assinalando a inauguração da estação de Maracangalha, em 1943.

      Caymmi surgiu, portanto, como „herói nacional de Maracangalha“. Com sua poesia, seu sentido apurado das coisas populares, exaltou a antiga vila como o lugar ideal para se viver, verdadeiro paraíso na terra da Maracangalha caiu no gôsto do povo e hoje deve haver muita [gente] com vontade de arranjar uma Anália, para ir ver o recanto que Caymmi com seu samba, salvou da morte.

      * Antiga cidade da Pérsia nas ruinas

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      página 3

      Esta praça é tranqüila durante tôda a semana, mas aos sábados ganha movimento: a feira de Maracangalha

      CAYMMI é o herói que não conhece a vila por êle ressuscitada. Nunca andou por lá. Daí a grande surprêsa dos maracangalhenses, ao terem notícias do samba. Enquanto o resto do Brasil ficou curioso de saber o que era Maracangalha, seus habitantes matutavam em como o sambista fôra descobrir a pacata e esquecida vila, cujo próprio nome tinha sido condenado ao desaparecimento. O diabo é que o homem conhecia bem o „chapéu de palha“ e o „uniforme branco“.

      Sem conhecer Maracangalha, o moço de cabelos brancos teve nela uma das maiores inspirações de sua vida de artista. Como bom poeta que é, seus versos transformaram Maracangalha num dêsses lugares-mito, a que a gente aspira, coisa assim da família da Pasárgada de Manuel Bandeira. Realmente, a existência ali é tranqüila, ainda com aquêle gostoso som primitivo. Todos se conhecem e procuram ajudar-se, ainda livres dos percalços da cidades mais adiantadas. Maracangalha, no entanto, segundo seus moradores mais idosos, já perdeu muito do sabor e do pitoresco, com a invasão da máquina.

      Mas isso não importa, porque não há mais quem consiga arrancar do sentimento do povo essa impressão deixada pelos versos de Caymmi. O que interessa agora é saber como nasceu em Caymmi a inspiração do samba, sem nunca êle ter ido a Maracangalha.

      Tem origem num fato curioso, contado pelo poeta das praias da Bahia, numa roda de amigos, quando, recentemente, estêve em sua velha [casa?]. Explicou que, nos bons tempos de boêmia em Salvador, tinha [..] companheiro, que, apesar dos seus poucos recursos, sustentava [duas mulheres?]. Para isso, dava um murro danado, vendendo mil e uma [coisa?] dia e noite, entre uma pinga e outra. Como negociava

      Nem Análias nem uniformes brancos, porque há um entêrro em Maracangalha

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      página 4

      EM MARACANGALHA TAMBÉM SE MORRE

      com gente de Maracangalha, tôda vez que queria passar alguns dias com a segunda mulher (viviam ambas em Salvador), dizia para a primeira: „Eu vou pra Maracangalha, mulher“.

      O prefeito convidará Caymmi para fazer as inaugurações

      QUANDO descemos do trem da Leste, uma chuva miúda caía na cidadezinha. A lama e os atoleiros indicavam um bom pé-d’água recente. A primeira pessoa que nos indicaram foi o prefeito do município, que vive mais em Maracangalha que na sede: acumula as funções públicas com a de técnico da usina. Encontramo-lo de botas e coberto de barro, pronto para viajar para S. Sebastião. Ao saber de nossa missão, desistiu de ir. Como sentíssemos dificuldades em atravessar certos trechos enlameados, explicou que, em poucos dias, ia iniciar grandes melhoramentos. Já sentados em sua sala de visitas, provando uma legítima cachaça de alambique, o homem finalmente soltou a coisa: pensava em convidar Caymmi para inaugurar as obras, ocasião em que seria prestada uma grande homenagem ao cantor de Maracangalha. A idéia tomou corpo e tôda a vila está animada com essa visita do seu herói.

      Tipos curiosos e gente valente

      MARACANGALHA é como qualquer outra cidadezinha do interior, com a igreja, a escola, o campo de futebol, um mercado e a rua principal. É pena que nada mais encontremos dos tempos coloniais. Nenhuma construção, nenhuma reminiscência. Até a casa do senhor de engenho, tôda reformada, não adianta de muito tempo. Tem uns 70 anos. É a habitação mais antiga. Explicaram-nos: a grande maioria das construções era de palha e foi substituída. Do velho engenho, não ficou nada. No seu lugar, ergueu-se a usina.

      Restava-nos conversar com os moradores mais velhos. Da mesma forma, suas histórias retrocedem pouco no tempo. Há, entretanto, tipos curiosos e a crônica da gente valente, da capoeira e do candomblé. Porque ali era centro de mestres da capoeiragem e de pais-de-santo famosos, ficando êstes mais afastados, em Cassaracongo [5 quilometros de Maracangalha – velhosmestres.com], lugar em que só vivia um prêto retinto.

      Os mais antigos de Maracangalha são famosos. Bertolino Pereira de Lima, mulato escuro, já na casa dos 70, é romancista. Nunca publicou um livro. Só se lembra do nome de quatro: „Lente Misteriosa“, „Vida de Lindaura“, „Vida de Marina“ e „O Viajante“. Ficou de voltar para nos mostrar suas criações, mas sumiu e não houve jeito de encontrá-lo. Dionísio Barbosa Brandão, branco, está com 73 anos e é o gerente da usina. Tinha 17, quando viu transformar-se o engenho em usina.

      Os dois grandes tipos, porém, são o prêto José Lúcio e Mestre Conrado, aquêle com 70 e êste com 95 anos. Contam-nos que, na década de 30, Maracangalha transformou-se praça de guerra, para enfrentar „cabras“ de um famoso coronel de jagunços do interior baiano. Ambos, na mocidade, foram duros na queda. José Lúcio ainda é um pedaço de negro, que com tôda a idade, mete mêdo a qualquer môço de 20 anos. Mestre Conrado foi discípulo de Compadre Onofre, o grande capoeira do lugar.

      Falam pouco, desconfiando da nossa curiosidade. Com jeito, vão soltando a língua. E com orgulho que relatam a morte do famanaz „Besouro“, o mais temido capoeira baiano de tôdas as épocas, rei em Santo Amaro da Purificação: „Foi furado aqui em Maracangalha, num dia de feira agitada [domingo, 6 de julho 1924 – velhosmestres.com]. Acabou seu reinado nesse dia.“

      Quem sabe se Anália não será mesmo Amália?

      É assim Maracangalha, onde só não encontramos Anália. Mas tivemos notícia de uma mulher viramundo, que não assenta pé em lugar algum. Está com 50 [45 – velhosmestres.com] anos, hoje. Foi, no seu tempo, famosa nos passos de dança, rainha das rodas de samba. Dizem que ainda agora é capaz de uma grande façanha e, mesmo pra lá de balzaquiana, [..] muita cabeça virada. Chama-se Amália [Maria Amália da Cruz, 1911-1992 – velhosmestres.com] e há, em Maracangalha [muita gente que?] acredite seja a Anália do samba de Caymmi.

      Ressuscitada Maracangalha, resta ao compositor esclarecer [..] fato a sua Anália é mesmo Amália.



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