• Revista Capoeira
     Mestre Gato Preto, a voz da experiência
    1999

    • A capa da revista

    M Gato Preto


    Mestre Gato Preto, a voz da experiência

    • Revista Capoeira N°04, ano II, 1999
      Roger Spock

      -

      Neste 19 de março, ele completa setenta anos [na verdade compeltou 70 anos em 2000 - velhosmestres.com], cinqüenta dos quais envolvido com a Capoeira, mas continua firme na sua arte, para dar exemplo aos mais novos.

      O garoto José Luiz Gabriel começou aos oito anos na Capoeira e, aos doze, todos achavam que ele já sabia tudo. Ele não acreditou nisso e continuou buscando novos aprendizados, como ainda faz até hoje. Nunca se formou em Capoeira, por convicção. Entende que o capoeirista não é um médico, que aprende tudo e se forma, para exercer sua profissão. "A Capoeira nunca pára", diz ele.

      Depois de conviver com outros grandes expoentes da Capoeira, em Salvador/BA, mestre Gato Preto - nome que o notabilizou - se transformou, desde 1966, num embaixador itinerante da Capoeira, visitando muitos países e transmitindo seus conhecimentos para capoeiristas novos e velhos dos quatro cantos do mundo. Nesta entrevista exclusiva à Revista Capoeira, ele relata, sem reservas mentais, toda sua invejável experiência:

      Revista Capoeira (RC): Como e quando foi seu encontro com a capoeira?

      Comecei, aos oito anos, com meu pai, Eutíquio Lúcio Góes. Ele foi meu mestre. Aos doze anos de idade (1941), achavam que eu já não tinha mais nada para aprender. Os treinos eram num quartinho fechado. Ele atacava com uma esgrima (bastão de maculelê) ou facão, para eu me defender. Quando eu errava, ele acertava minha munheca (pulso). Até um dia que dei uma cabeçada forte e ele caiu. Quando se levantou, saiu correndo atrás de mim, ameaçando me cortar, e gritando: "Vem cá, moleque"! Aí parou de me ensinar.

      Depois veio meu tio, João Catarino, aluno de Besouro, até que ele morreu de derrame, que a turma chamava de congestão. Passado esse período, veio Leo, Cobrinha Verde, mestre Waldemar e mestre Pastinha e também Gildo, Roberto e João Grande, que tocava berimbau e foi muito importante como capoeirista, na época. Na roda, João Pequeno, Moreno, Albertino, Valdomiro e eu fazíamos a bateria.

      RC: E seu contato com os mestres da época?

      Havia, na Bahia, muitos mestres que jogavam bem, como Canjiquinha, Zéis, Vandir, Agulhão, Zacarias, Bom Cabelo. Outros, que não eram mestres, mas também jogavam muito bem, como Deodato e Bigodinho. Todos da Liberdade (bairro da Liberdade, em Salvador), de mestre Waldemar, eram bons, bons, muito bons! Tinha um encanador, que morreu com 28 anos, que foi um grande angoleiro!

      RC: Naquela época, quais eram, ao seu ver, os capoeiristas de maior destaque?

      Na minha avaliação, João grande, no jogo-de-dentro. Na base do sapateado, foi o cabra Gilberto que se cuidou muito e hoje está bem velhinho.

      RC: Como era a instrumentação da Capoeira?

      Três berimbaus (um gunga, um berra-boi e um viola), dois bodes (pandeiro), um ganzá de bambu (não o ganzá de metal) e um reco-reco. O primeiro berimbau fazia a angola; o segundo, o são bento grande e o terceiro, a angolinha. Era esta a bateria, acompanhada do canto.

      RC: Qual era o perfil do capoeirista naquele tempo?

      O capoeirista era um trabalhador: um condutor, que tirava a cana; um estivador do cais do porto; um pedreiro; um carpinteiro; um eletricista; caixeiro-viajante; um marinheiro, enfim, era sempre um trabalhador que, independente da função profissional, jogava por amor, por lazer, um tipo de terapia. O capoeirista fazia aquilo por ser uma dança, que fazia ele se sentir bem e conseguir o que queria, através da concentração.

      RC: Não rolava dinheiro? Ninguém vivia da capoeira?

      O dinheiro veio depois, com brincadeiras feitas na roda. Alguém pedia para o capoeirista pegar com a boca uma nota de dinheiro, colocada no chão, no meio da roda, em cima de um lenço vermelho.

      Os dois parceiros saíam jogando até que um fosse imobilizado com um golpe de pé - não com a mão - e o outro pegasse a cédula. Era preciso deixar o adversário imóvel para não correr o risco de receber um chute no rosto. Depois de tudo, se abraçavam e o dinheiro era colocado na cabaça do berimbau, para pagar a rodada de cerveja, refrigerante ou pinga, depois da roda. Só aí entrava o dinheiro.

      RC: Nem os mestres tinham a capoeira como profissão?

      Ninguém tinha. Todos eles eram operários, tinham sua profissão. Pastinha era tarefeiro, depois foi tomar conta de jogo; Daniel Noronha trabalhava na estiva; Canjiquinha e Caiçara, na Prefeitura; Paulo dos Anjos, como motorista; mestre Ferreira e eu, como armador. Ninguém vivia da capoeira. Eu vivi nela durante 40 anos sem ganhar um tostão!

      Mas naquela época, se aprendia muito. Um grupo da Liberdade era levado para me visitar em Itapuan e um grupo jogava com o outro. O que tomasse uma rasteira e caísse de bunda no chão, perdia o jogo. Também não se podia sujar a roupa do adversário. Era falta de educação. Os mestres ficavam abraçados, conversando. Brincávamos a tarde toda!

      RC: E a capoeira atual?

      O negócio evoluiu. Evoluir é muito bom, mas é preciso ter uma raiz, um início para a coisa não andar para um lado contrário, pois esta arte é rica demais! A capoeira é sua vida, minha e de muitos outros. Não se tem como controlar isso. Daí, é preciso ter um domínio de educação para que ela não perca essa coisa linda que possui.

      RC: O que um capoeirista precisa para se tornar mestre?

      Para começar não existe formatura em capoeira. Um ponto final, porque a capoeira não tem fim. Onde quer que você vá, irá vê-la. O mesmo vai acontecer com seu filho, seu neto, ou bisneto: onde quer que eles forem, irão vê-la. Ela é universal, ela anda, é dinâmica, não tem formatura como o médico que aprende tudo, se forma e vai cuidar da profissão.

      O doutor da capoeira é a sabedoria. Para conseguir tem que prolongar a vivência na arte. Como? Dando um cordão ao menino e deixar ele treinar durante quatro anos, para se preparar e para se acostumar com a realidade. Para conseguir a sabedoria. Com dez anos, ele pode ser contra-mestre, através de pesquisas e estudos. Então, aos vinte anos de experiência ele pode ou não ter condições de ser mestre. Tudo depende da sabedoria e sabedoria nada tem a ver com a idade. Daí pode vir o título, dado pelos mestres, de "passou a estar pronto". Não significa estar formado, pois o trabalho e o aprendizado continuam. A capoeira não pára, não morre.

      A capoeira temos 180 golpes e 180 contragolpes. Não se aprende dez ou doze golpes, falar que conhece seis golpes da regional, outros da angola e já sai dizendo que é capoeirista. È preciso conhecer, descobrir e confrontar todos os golpes.

      Muitos não querem discutir ou aprender toda a capoeira. É aí que se acabam, porque não vão passar do mínimo que já sabem. Quem leva a pior nisto tudo é a própria capoeira, porque esse pessoal termina perdendo o talento que possui e afastam a capoeira da realidade dela.

      RC: O Sr. se referiu a um tempo em que todos eram amigos, havia união. Hoje há muita rivalidade. O capoeirista forte e grande entra na roda disposto a destruir o outro. Que acha disso?

      Naqueles tempos, os mestres se respeitavam entre si e incentivavam a consideração por parte dos alunos. O cara podia ser grandão, como Agulhão, que media dois metros de altura, ou forte como mestre Waldemar, Traíra, Zacarias, Davi ou Dada - que na época, davam o maior show de capoeira - mas havia um controle, um respeito. Quem tomava uma cabeçada, caía e se levantava para dar as mãos ao parceiro, sem agressividade ou rancor.

      Hoje eu vejo que há muita gente ensinando a bater, querendo ser o melhor e enchendo a cabeça dos coitados, que não tem informação, de que isto é importante. São pessoas que só vêem o lado da destruição. Os mestres tornam-se culpados pelas conseqüências e a capoeira fica numa posição em que não pode mostrar seu potencial.

      RC: Isso também acontecia também entre os mestre antigos?

      Não. Os únicos mestres que discutiam em Salvador, naquela época, eram Canjiquinha e Caiçara, mas tudo encenação, nas apresentações para turistas. Abusavam dos risos e das tapeações. Os dois morreram de bem um com o outro.

      Bimba tinha academia no Maciel de Cima e Pastinha, no Largo do Pelourinho. Bem próximos. Não se visitavam, mas também não falavam mal da academia do outro. Tenho comigo reportagens de jornal de 1984 sobre João Pequeno e João Grande, em Itapuan. Precisa ver como eles se gostavam e se respeitavam!

      Caiçara e Canjiquinha foram meus amigos até o fim de suas vidas. Alunos de Bimba mantém amizade comigo há 45 anos. Não tenho inimigos na capoeira e se tiver não serão contra mim, mas contra a arte. Não faço nada contra eles. Uns se destroem por si, outros se reeducam e aparecem sem entrar nessa de traição.

      Mais recente, conheci alunos que chegam a querer bater em seus mestres, alegando que nada aprenderam. Sabe o que é isso? Falta de educação. O capoeirista tem que se educar, para respeitar e ser respeitado.


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